quarta-feira, 13 de julho de 2011

Pinhal

E agora, não tem mais a gente lá. Lembro-me de tudo, de todos os momentos, de todas as risadas, choros, conversas sérias e as bobas. Éramos muito unidos. Onde um ia, todos iam atrás. Praticamente fizemos a nossa juventude juntos. Formávamos um sexteto. Mariah sempre animada, uma risada estridente, não era dessas de levar desaforo pra casa, se tinha que falar algo, falava na cara, sem medo de nada. Tinha cabelos loiros, que pareciam que havia feito luzes expostos ao sol. Era difícil vê-la para baixo, e quando assim estava, todos percebiam que algo de ruim se passava na vida dela. Cristina não gostava muito de Mariah e vice-versa, mas conviviam juntas, aprenderam a conviver juntas. Cristina, sempre chegava com longas histórias na segunda, sempre tinha coisas para contar do seu final de semana com seus "amigos coloridos". A Regina, considerada a intelectual no nosso grupo, sempre ia bem nas provas. Era muito extrovertida, sempre dava algum bola fora, e nos divertíamos juntas. Alana, de pele morena e cabelos enrolados do tipo "tóin tóin", era um pouco mais séria, porém, quando entrava na brincadeira, não tinha quem a segurava em suas falas. E enfim, a Rafa, era a popular, sempre andava comigo, quando tínhamos que ir á algum lugar pelo colégio. De todas, era a que eu menos gostava, mas assim como Mariah e Cristina, aprendi a conviver. Eu e elas, formávamos o grupo do intervalo, o grupo de tomar algo no barzinho da esquina, o grupo de bilhetes em seminários na universidade. Apesar de uma ou outra não se darem tão bem, sentimos falta. O contato hoje com elas, é raro. Eu, converso mais com apenas uma, e as outras quatro, quase não há mais contato. Cada um seguiu a sua vida, após aquele belo baile de formatura. Mas há algo que ainda nos une. Além de fotos, bilhetes, nada se compara a amizade feita durante tantos anos. Quando passo pelos lugares que costumávamos frequentar, vejo outros rostos, outros grupos de amigos, outros risos, outros assuntos. Não tem mais a gente lá.

domingo, 10 de julho de 2011

A Carta

Era sábado. Chegamos do nosso passeio rotineiro, felizes, como duas pessoas recém casados. Eis que, ao abrir a porta, um envelope. Acho que ele não percebeu, mas senti um calafrio ao ver aquele papel azul no chão. Será que era mesmo o que eu estava pensando? Ele pegou a carta. Pedi para que a queimasse, mas não quis, e abandonou a carta na mesa. Até que resolveu ler. Duas palavras e nada mais. Aliás, para mim eram duas palavras amargas, de dor, de medo. Para ele, palavras que lhe causavam desconfiança. A medida que as cartas iam chegando, meu medo aumentando e o laço de amor entre nós, se é que ainda existia, se esfriando.
Depois da morte dos nossos filhos, nossa relação esfriou. Ele me culpa pela morte deles. Prometeu diante dos corpos dos filhos, viver de luto até sua morte, e assim faz. E eu luto, pelo menos tento, pelo nosso amor.
O que aconteceu fora da nossa relação, é algo que quero esquecer. Se soubesse que ia me fazer sofrer, mais do que já estava, não teria procurado amor em outro. E as cartas, cada semana a mais, deixava a casa fria.
Eu fazia de tudo para mostrar serenidade e mansidão. Mas percebia em seus olhares que não era isso que ele via em mim. Pode ser que eu estava me entregando, errando o ponto da toalha várias vezes. O que realmente temia, eram seus olhares de soslaio por trás do jornal. Condenava-me. E eu com medo, errava o ponto.
Uma noite, entrei no quarto e ele estava sentado na cama, olhando fixo algum objeto.
- Está sem sono querido?
- A carta...
- O que tem a carta? Esquece-a. Isso é brincadeira de quem não tem o que fazer!
- Me escondes algo?
- Já te disse, brincadeira boba de quem não tem o que fazer. Anda, vamos dormir.
Queria acabar logo com o assunto. Parecia que tinha borboletas no meu estômago. Era a sensação que eu sentia falando da carta. E novamente tive a sensação, quando vi o que ele tinha comprado. Não precisávamos daquilo. “É para proteger-nos da violência”, alegou ele. Algo me dizia que não era isso.
Tinha uma amizade muito forte com o primo dele. Porém, o primo era apenas intermediador da relação que eu tinha com o outro. Mas ele pensava que era com o primo. Será que seria capaz de fazer alguma coisa contra o próprio primo? Não podia deixar isso acontecer, eu tinha que fazer algo para protegê-lo, o primo não tinha culpa.
Certo dia tricotando, veio a imagem do revólver na minha cabeça. Não, suicídio já era demais para mim. Portanto, eu não aguentava mais aquele vazio mórbido. Precisava agir, e rápido. Antes que Ulysses chegasse da guerra.
Fui para o quarto, coloquei um vestido branco, com cheiro forte de naftalina. Mas era o único branco que tinha. E pra mim, morrer de branco, significaria o início da paz dele, e a minha eternamente. Deitei, pensei mais uma vez. Peguei a arma e puxei o gatilho. Pronto. Agora acaba o sofrimento, o meu, e o dele.
Parece que minha morte, não fez diferença pra ele. O que era nossa rotina, pra ele continua. Sentado, lendo o jornal, naquele silêncio ensurdecedor.
Camilla Ribeiro