Rita foi caminhando até sua casa. Não morava muito longe da casa de Henrique. Apesar de Henrique insistir em acompanhá-la até a casa, ela não hesitou em aceitar. Pensou, e decidiu que era melhor ir sozinha. Tomar um ar, colocar as idéias no lugar. Afinal, havia muito que pensar. E se perguntava: Porque? Porque justo comigo meu Deus? Ela que achava que tinha feito tudo certo, que tinha se entregado de corpo e alma à aquele rapaz, que no primeiro instante que se conheceram, mostrou-se um verdadeiro príncipe. Rita, começou a se lembra de quando se conheceram.
Estava no aniversário de uma amiga. Conversando numa rodinha com as colegas de classe, rindo alto das bobagens ditas por elas. De repente, Angelina, trouxe um amigo seu para apresentar para as garotas da roda. E aí apareceu Henrique. Jovem, com 16 anos, cabelos escuros caído nos olhos. Falando em olhos, estes era de um azul vivo! Rita se encantou. Mas, mas não deu muito bola. Ela tinha 20 anos, e ele apenas 16. Era uma criança pra ela. Embora, ele não parecesse ter essa idade. Quase não acreditou quando Angelina disse que ele tinha 16.
Henrique ficou sentou se na roda, e ficava seguindo com os olhos Rita. Ela, envergonhada, pois há muito tempo percebeu que o garoto a estava observando. Os olhares se encontravam constantemente. Rita tentava evitar, mas era mais forte do que ela. Mas não, ela não poderia estar fazendo isso. Ele era uma criança, não era homem pra ela. Se é que dá pra chamar de homem um garoto de 16 anos. Decidiu ir ao banheiro pra aliviar a tensão no meio daquela roda. No caminho, sentiu algo tocar seus ombros. Olhou para trás, e era ele.
- Oi...hmm.. Tudo bem? - disse Henrique, sem jeito.
- Oi. Tudo bem. - respondeu Rita, num tom grosseiro. Não queria deixar aquele garoto com a esperança que ela tivesse afim dele. Pois não estava. Apesar da voz dele ser linda, de sentir borboletas no estômago ao vê-lo... Não. Ela não queria nada com ele. Por enquanto.
- Se eu não estou ruim de memória, seu nome é Rita, não é mesmo?
- É sim. Olha, preciso ir ao banheiro.
- Eu te espero.
- Posso demorar, e muito.
- Espero o tempo que for preciso.
Rita queria abrir um largo sorriso nesse momento. Mas não podia. Não queria sentir nada. Aquilo era só um papinho bobo, um garotinho querendo atenção. Entrou no banheiro rapidamente. Passou uma água no rosto e se olhando no espelho, começou a reconstituir a cena. Dizia para si mesma, que aquilo não poderia estar acontecendo. Mal conhecera o garoto, e já estava pensando nele com um sorriso enorme nos lábios e um brilho nos olhos.
Eu sinto que sei que sou um tanto bem maior!
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
quinta-feira, 21 de junho de 2012
Ela só precisava de um pouco de ar. Aquela conversa agonizante,
sufocante, a deixou assim. Sem ar. Sem rumo. O que conversaram? Não se
sabe. Nenhuma palavra saiu da boca dos dois ao sair daquele quarto.
Entrei no quarto para ver se eu poderia achar alguma pista. Nada. A não ser, a penumbra daquele ambiente, aquele vento gelado entrando
por aquela velha janela de madeira, e um clima pesado. Raiva, ódio,
angústia, tristeza, era o que penetrava na alma de quem entrava naquele
quarto. Sem sombras de dúvida, a pior sensação que eu já senti na minha
vida.
Ele? Quem é que sabe? Um rapaz, jovem, nem tinha seus 20
anos. Mas carregava em seu olhar uma marca inigualável. Seu rosto, uma
expressão de quem já tinha passado poucas e boas na vida. Apesar de saber que era verdade, ficava decepcionado com as pessoas quando achavam que ele era uns 10 anos mais velho. Henrique, nunca contou a ninguém o motivo de toda aquela juventude envelhecida. Quem sabe foi sobre isso a conversa dele com a Rita. Por que não poderia ser esse o motivo de tanta conturbação entre eles? Ah! E o silêncio ensurdecedor. De tudo, isso faz sentido.
(continuação nas próximas postagens)
Camilla Ribeiro
quarta-feira, 13 de julho de 2011
Pinhal
E agora, não tem mais a gente lá. Lembro-me de tudo, de todos os momentos, de todas as risadas, choros, conversas sérias e as bobas. Éramos muito unidos. Onde um ia, todos iam atrás. Praticamente fizemos a nossa juventude juntos. Formávamos um sexteto. Mariah sempre animada, uma risada estridente, não era dessas de levar desaforo pra casa, se tinha que falar algo, falava na cara, sem medo de nada. Tinha cabelos loiros, que pareciam que havia feito luzes expostos ao sol. Era difícil vê-la para baixo, e quando assim estava, todos percebiam que algo de ruim se passava na vida dela. Cristina não gostava muito de Mariah e vice-versa, mas conviviam juntas, aprenderam a conviver juntas. Cristina, sempre chegava com longas histórias na segunda, sempre tinha coisas para contar do seu final de semana com seus "amigos coloridos". A Regina, considerada a intelectual no nosso grupo, sempre ia bem nas provas. Era muito extrovertida, sempre dava algum bola fora, e nos divertíamos juntas. Alana, de pele morena e cabelos enrolados do tipo "tóin tóin", era um pouco mais séria, porém, quando entrava na brincadeira, não tinha quem a segurava em suas falas. E enfim, a Rafa, era a popular, sempre andava comigo, quando tínhamos que ir á algum lugar pelo colégio. De todas, era a que eu menos gostava, mas assim como Mariah e Cristina, aprendi a conviver. Eu e elas, formávamos o grupo do intervalo, o grupo de tomar algo no barzinho da esquina, o grupo de bilhetes em seminários na universidade. Apesar de uma ou outra não se darem tão bem, sentimos falta. O contato hoje com elas, é raro. Eu, converso mais com apenas uma, e as outras quatro, quase não há mais contato. Cada um seguiu a sua vida, após aquele belo baile de formatura. Mas há algo que ainda nos une. Além de fotos, bilhetes, nada se compara a amizade feita durante tantos anos. Quando passo pelos lugares que costumávamos frequentar, vejo outros rostos, outros grupos de amigos, outros risos, outros assuntos. Não tem mais a gente lá.
domingo, 10 de julho de 2011
A Carta
Era sábado. Chegamos do nosso passeio rotineiro, felizes, como duas pessoas recém casados. Eis que, ao abrir a porta, um envelope. Acho que ele não percebeu, mas senti um calafrio ao ver aquele papel azul no chão. Será que era mesmo o que eu estava pensando? Ele pegou a carta. Pedi para que a queimasse, mas não quis, e abandonou a carta na mesa. Até que resolveu ler. Duas palavras e nada mais. Aliás, para mim eram duas palavras amargas, de dor, de medo. Para ele, palavras que lhe causavam desconfiança. A medida que as cartas iam chegando, meu medo aumentando e o laço de amor entre nós, se é que ainda existia, se esfriando.
Depois da morte dos nossos filhos, nossa relação esfriou. Ele me culpa pela morte deles. Prometeu diante dos corpos dos filhos, viver de luto até sua morte, e assim faz. E eu luto, pelo menos tento, pelo nosso amor.
O que aconteceu fora da nossa relação, é algo que quero esquecer. Se soubesse que ia me fazer sofrer, mais do que já estava, não teria procurado amor em outro. E as cartas, cada semana a mais, deixava a casa fria.
Eu fazia de tudo para mostrar serenidade e mansidão. Mas percebia em seus olhares que não era isso que ele via em mim. Pode ser que eu estava me entregando, errando o ponto da toalha várias vezes. O que realmente temia, eram seus olhares de soslaio por trás do jornal. Condenava-me. E eu com medo, errava o ponto.
Uma noite, entrei no quarto e ele estava sentado na cama, olhando fixo algum objeto.
- Está sem sono querido?
- A carta...
- O que tem a carta? Esquece-a. Isso é brincadeira de quem não tem o que fazer!
- Me escondes algo?
- Já te disse, brincadeira boba de quem não tem o que fazer. Anda, vamos dormir.
Queria acabar logo com o assunto. Parecia que tinha borboletas no meu estômago. Era a sensação que eu sentia falando da carta. E novamente tive a sensação, quando vi o que ele tinha comprado. Não precisávamos daquilo. “É para proteger-nos da violência”, alegou ele. Algo me dizia que não era isso.
Tinha uma amizade muito forte com o primo dele. Porém, o primo era apenas intermediador da relação que eu tinha com o outro. Mas ele pensava que era com o primo. Será que seria capaz de fazer alguma coisa contra o próprio primo? Não podia deixar isso acontecer, eu tinha que fazer algo para protegê-lo, o primo não tinha culpa.
Certo dia tricotando, veio a imagem do revólver na minha cabeça. Não, suicídio já era demais para mim. Portanto, eu não aguentava mais aquele vazio mórbido. Precisava agir, e rápido. Antes que Ulysses chegasse da guerra.
Fui para o quarto, coloquei um vestido branco, com cheiro forte de naftalina. Mas era o único branco que tinha. E pra mim, morrer de branco, significaria o início da paz dele, e a minha eternamente. Deitei, pensei mais uma vez. Peguei a arma e puxei o gatilho. Pronto. Agora acaba o sofrimento, o meu, e o dele.
Parece que minha morte, não fez diferença pra ele. O que era nossa rotina, pra ele continua. Sentado, lendo o jornal, naquele silêncio ensurdecedor.
Camilla Ribeiro
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